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Protagonismo feminino e materno no ensino superior público da Paraíba
Existe algo simbólico no ar quando, pela primeira vez na história da Paraíba, três das quatro instituições públicas de ensino superior do Estado passaram a ser lideradas por mulheres. É um capítulo importante na equidade de gênero, e indica um resultado silencioso de décadas de trabalho e de escolhas difíceis, sobre não abandonar nem a carreira nem a família.
Mary Roberta Meira Marinho, Terezinha Domiciano e Célia Regina Diniz têm trajetórias distintas: uma veio da Área Tecnológica, outra da Medicina Veterinária, outra da Engenharia Química. Mas têm em comum algo que vai além dos títulos de mestra e doutora: as três são mães. E todas as três mostram que a maternidade não atrapalhou a chegada até onde estão.
A inspiração começou em casa
Em 2022, o Instituto Federal da Paraíba completou 113 anos de história. Em mais de um século de existência, recebeu pela primeira vez uma mulher no cargo de reitora. Mary Roberta chegou para conduzir uma das maiores redes de ensino técnico e tecnológico do Nordeste, com 21 campi espalhados pelo Estado, onde, só em 2025, mais de 16 mil estudantes mulheres estavam regularmente matriculadas.
A origem de Mary moldou a própria trajetória e ela destaca isso como uma forma de não esquecer as raízes. "Minha trajetória foi marcada por desafios, mas com muita motivação. Creio que o sertão molda os sertanejos com a dificuldade, mas com a alegria da vida a cada fim de seca", diz. Ela entrou no IFPB como estudante vinda do interior, carregando o exemplo de uma mãe professora que acreditava na educação como caminho. "Minha mãe era pura dedicação e trabalho. Isso me motivou".
Mas o caminho até a reitoria não foi isento de resistências. Mary fala com clareza sobre os mecanismos que travam o avanço das mulheres nos espaços de poder. "A competência das mulheres tem sido aproveitada até certo nível, onde trabalho duro e sistemático é necessário. Quando chega ao nível superior, as qualidades antes valorizadas são destacadas como defeitos." É o momento em que muitas recuam, diz ela, porque as regras mudam. "Estávamos na lógica da construção, do trabalho sistemático e humanizado, e entramos no espaço onde não estávamos acostumadas: o espaço da luta pelo poder".
Sobre a maternidade, Mary é direta: ela não divide, ela soma. "A dinâmica de ser mãe engrandece muito minha vida, me faz crescer muito, porque ser mãe é exercitar o amor maior." E vai além: "As experiências se completam. Devemos, por isso, não nos sentirmos culpadas por termos dupla missão".
22 anos de construção antes do topo
Na Universidade Estadual da Paraíba, a professora e pesquisadora Célia Regina não chegou à reitoria de repente. Ela construiu, ao longo de 22 anos de gestão universitária passando pelas Pró-Reitorias de Planejamento, de Administração, de Gestão de Pessoas e pela Chefia de Gabinete, um repertório que a capacitou para ocupar o cargo mais alto da instituição.
"Não foi uma decisão individual ou movida por ambição pessoal, mas pelo entendimento coletivo de que eu poderia contribuir ainda mais com a instituição", destaca.
Ser mulher nesse ambiente, ela reconhece, trouxe um peso a mais. "Ser mulher nesse espaço também significa, muitas vezes, precisar demonstrar constantemente a própria capacidade." Mas, em vez de intimidação, esse peso virou combustível. "Isso nunca me intimidou. Pelo contrário, reforçou ainda mais meu compromisso".
Quando se tornou mãe, Célia conta que aprendeu a integrar todas as funções. "Houve, sim, momentos desafiadores, em que foi necessário fazer escolhas difíceis e reorganizar prioridades. Aprendi que não se trata de escolher entre uma dimensão e outra, mas de buscar o equilíbrio possível, mesmo sabendo que ele nem sempre será perfeito".
E é dessa experiência que nasce o recado às que vêm depois. "Quero que outras mulheres dentro da UEPB se reconheçam como capazes, preparadas e legítimas para ocupar esses lugares".
A virada histórica
Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Terezinha Domiciano reforça o marco histórico da presença feminina na liderança da educação superior paraibana. Formada em Medicina Veterinária, com mestrado e doutorado em Zootecnia, ela assumiu a reitoria da instituição em 2024, após uma trajetória construída dentro da própria universidade.
Terezinha já havia disputado a reitoria em 2020 e, apesar de ter sido a mais votada na lista tríplice, não foi nomeada. Quando retornou ao pleito em 2024, conquistou quase 70% dos votos da consulta pública e novamente liderou a votação, e dessa vez foi nomeada. A relação da reitora com a UFPB começou ainda como estudante, participando do movimento estudantil e de atividades de pesquisa e extensão. Ao longo dos anos, ocupou cargos de gestão, como chefe de departamento, direção de centro e coordenação de projetos institucionais. “A nossa trajetória ao longo do tempo, do dia a dia, foi decisiva para que eu chegasse onde cheguei. Ocupar cargos na universidade me deu uma bagagem e um conhecimento técnico de gestão que são fundamentais para o desempenho hoje na UFPB.”
Assim como outras mulheres em espaços de liderança, Terezinha reconhece que ainda existe uma cobrança maior sobre a capacidade feminina de comandar instituições, mas acredita que a maternidade também contribui para uma gestão mais humana e sensível. “Essa prova é todos os dias, em todos os espaços. Seja como docente, pesquisadora ou gestora, a gente tem sempre que provar o melhor. Como mãe, a gente desenvolve esse olhar mais sensível para as pessoas. Esse olhar humano, para mim, é fundamental.”
A perspectiva também aparece nas ações recentes da universidade. A UFPB lançou o Progestar, programa voltado ao acompanhamento e formação de alunas e servidoras gestantes, buscando fortalecer o acolhimento e a qualidade de vida dentro da comunidade acadêmica. Na esfera nacional, o Governo Federal lançou o Programa Aurora, voltado a professoras orientadoras vinculadas a programas de pós-graduação stricto sensu que sejam gestantes ou mães de crianças de até dois anos. A iniciativa tem como objetivo reduzir o impacto da maternidade na produtividade da carreira científica.