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Da Paraíba ao cosmos, investimentos em ciência impulsionam conhecimento e democratização do saber
Pela primeira vez desde 1972, seres humanos estão se aventurando além da órbita baixa da Terra. A missão Artemis II da NASA aconteceu na última semana e se tornou um marco tecnológico e simbólico para a história da humanidade. O assunto sobre o estudo do cosmos e o lugar do ser humano na imensidão do universo trouxe à tona não apenas o tema, mas também a importância de investir em ciência e tecnologia.
Atualmente, diversas tecnologias, nas áreas de saúde, comunicação e engenharia, são fruto de viagens espaciais e estudos de pesquisadores que dedicam a sua vida a isso. Apesar de o assunto parecer distante aos olhos, é possível fazer a diferença na Paraíba, com investimentos públicos que podem transformar o futuro de muita gente.
Esse é o caso de Raíssa Estrela. Foi em uma ida ao planetário, localizado no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, em João Pessoa, que, ainda na infância, ela nutriu o seu primeiro sentimento de curiosidade sobre o universo. Hoje, a paraibana é pesquisadora do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL) e dedica parte da sua trajetória profissional a disseminar esse conhecimento.
Nesta semana, Raíssa concedeu uma palestra promovida pelo Governo da Paraíba, por meio da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia (Secties), em parceria com a Universidade Federal da Paraíba, intitulada “Da Terra ao Cosmos”, na qual compartilhou sua trajetória na ciência e apresentou ao público um pouco do trabalho que desenvolve na área de astrofísica.
O secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior, Claudio Furtado, destacou a relevância da divulgação científica como papel estratégico na formação de novas gerações. “É uma forma de fazer com que a população veja a importância da ciência, de atrair jovens e de desmistificar o que o cientista faz. Muitas vezes parece algo distante da realidade, mas tudo isso tem conexão direta com o nosso dia a dia, com a nossa ‘nave mãe’, que é a Terra”, completou.
Democratizar a ciência e torná-la acessível para toda a sociedade é fundamental. O Complexo Científico do Sertão é um exemplo de investimento com esse objetivo. Composto pelo Radiotelescópio Bingo, em Aguiar, a Cidade da Astronomia, em Carrapateira, o Vale dos Dinossauros, em Sousa, e o Centro Científico e Arqueológico da Paraíba, em Cajazeiras, o estado recebe uma rota científica que promove o desenvolvimento regional e científico.
Na opinião de Raíssa, iniciativas como essa contribuem para atrair pesquisadores, gerar oportunidades e inspirar jovens a seguirem carreiras científicas. Ela também destacou a importância de levar a ciência para além dos grandes centros urbanos. “Levar o conhecimento científico para regiões fora dos grandes centros é um passo vital para a democratização do saber”, afirmou.
Missão Artemis II
Uma das perguntas mais comuns sobre ciência espacial é: o que isso tem a ver com a minha vida? A resposta, segundo Raíssa, é mais próxima do que a maioria imagina. “Muitas das tecnologias desenvolvidas para a exploração espacial integram o nosso cotidiano sem que percebamos”, diz ela.
O GPS que orienta o celular, a comunicação via satélite e o CT scan no hospital têm raízes em pesquisas espaciais. Até a detecção precoce do câncer de mama se beneficiou de técnicas de processamento de imagem desenvolvidas para o telescópio Hubble. Satélites monitoram furacões, secas e ondas de calor com dias de antecedência. Outros acompanham o desmatamento da Amazônia e as mudanças no nível dos oceanos. “São dados essenciais para orientar políticas ambientais em todo o mundo”, destaca a pesquisadora.
No caso da missão Artemis II, para além dos avanços científicos, a tripulação inclui a primeira mulher e o primeiro astronauta negro a realizar uma jornada lunar. A bordo da cápsula Orion, eles fotografaram regiões da Lua que nenhum olho humano havia visto antes. “Aquele globo redondo, com sua mistura de azul, verde e branco, é onde estamos, é a nossa casa e também a de milhões de espécies. Ver a Terra assim, de longe, nos faz lembrar da sua fragilidade”, refletiu Raíssa.
Para além da poesia da imagem, a Artemis II carrega inovações que parecem saídas de ficção científica. A missão testará o sistema de Comunicações Ópticas, que transmite dados e vídeos em alta definição por laser, uma alternativa às ondas de rádio tradicionais. Além disso, a pesquisadora explicou que há um dispositivo do tamanho de um pen drive que simula o funcionamento de tecidos humanos em escala microscópica. São os chamados “órgãos em chip”, usados para estudar os efeitos da radiação e da microgravidade no corpo humano.
Células das plaquetas sanguíneas de cada astronauta foram colocadas em chips. Um deles viajou a bordo da Orion e o outro ficou na Terra. Após o voo, os pesquisadores compararão os dois para verificar se as células que estiveram no espaço sofreram mais danos ao DNA.
“Levar o conhecimento científico para regiões fora dos grandes centros é um passo vital para a democratização do saber. A astronomia nos ensina a olhar para o céu, a fazer grandes perguntas e a entender nosso lugar no universo”, afirmou Raíssa Estrela.
A pesquisadora destacou que suas falas refletem sua experiência e visão pessoal sobre os temas abordados, não representando, necessariamente, o posicionamento institucional da NASA